Entrevista: Mike Cheese Apokalypse (GEHENNA)

Intro por: Carlos Rubio

É muito dificil para mim falar sobre certos assuntos sem me empolgar e levar a coisa para o lado pessoal e até acabar me perdendo em meus próprios pensamentos de tanto que me desperta histórias de conversas com pessoas que curtem som.

Todo cara que curte Heavy Metal em todas suas vertentes flertou ou ainda flerta com o Punk/Hardcore, um puta gênero musical influente que dispensa apresentações. Então, não que precise de advogado para tal mas, acho extremamente valido o espaço dado neste respeitável *cof,cof* blog.

Bom essa entrevista traz à tona uma série de pontos de vista que alguns podem achar polêmicos, extremamente estúpidos ou totalmente irrelevantes. Mas não há forma de contestar a veracidade nas palavras de Mike, que viveu e ainda vive, com a faca entre os dentes pronto para socar o primeiro incauto que cruzar a sua frente tentando se impor ao seu peculiar modo de ver o mundo e suas coisas.

Atitude aliás compartilhada por bandas como Integrity, Mayday, The Process, Rot in Hell, Ringworm, Wegas, o próprio Gehenna entre outras, que fizeram parte de uma leva  que tocavam o que foi rotulado de Negative Hardcore ou estampadas como parte da “cena” Holy Terror (este é inclusive o nome da gravadora de Dwid Hellion do Integrity).

Tudo isso por causa da agressividade de sua música (cortesia da incorporação de influencia de bandas que vocês irão ler na própria entrevista e que são familiares a todos os leitores do IB) e pela desgraceira lírica que não pregava nada de revolução na base do panfleto e piquetes em praça pública, mas sim de uma forma extremamente violenta. Não apenas violência corporal de se chegar aos finalmente mas pensamentos, reflexões e respostas brutais a tudo que viesse de encontro aos seus ideais.

Muita gente cita a “Holy Terror” (que a princípio era um lance unicamente do INTEGRITY, porém como tudo usado genéricamente, usaram o termo para classificar bandas nessas características), como uma resposta ao ‘Hardcore Positivista’ do final dos anos 80, eu sempre achei a comparação injusta que diminui a espontaneidade da coisa toda. A época conflituosa que vivia o mundo gerou respostas diversas de seus jovens, não me estenderei muito, mas bandas como o Gehenna abraçaram o lado violento, o tal instinto animal que eu acredito que todos temos, mesmo o Dalai Lama!

Pessoalmente acho que todos tentamos conter nosso lado violento, eu tenho problemas de comportamento que felizmente com o passar dos anos tenho conseguido controlar e não repetir coisas que me arrependo (sem ajuda de religião e nem de nenhum outro fator externo chupa Bispo M7). Citando exemplos dentro do próprio PunkHardcore dois grandes expoentes do que eu chamei de ‘Hardcore Positivista’ tem historias que mostram que eles também tem seu lado violento, como quando H.R. tentou amarrar Ian McKaye para forçá-lo a fumar o cigarrinho de artista. E o mesmo Ian acertou um amigo na perna com uma marreta por provocá-lo dando uma baforada do tabaco verde em sua cara. Todos temos nossos demônios.

Para finalizar não critico e não condeno a postura de ninguém encarar o mundo e se pareço tendencioso é porque o ponto de vista destas bandas foram o meu ponto de vista nos anos 90. Mas cds do Bad Brains e Integrity convivem em harmonia em minha prateleira sendo ouvidos com regozijo cada um em seu momento. E não tenho intenção de iniciar uma discussão sobre o assunto, mas uma debate sobre o tema nos comments e sempre saudável, agregador e divertido.

Não há mais nada a ser dito por mim, leiam ai a entrevista com um dos pais da matéria. Mike Cheese.

1 – O Gehenna surgiu numa época em que a maioria das bandas de hardcore adotavam uma imagem positive/viraram Krishna, você poderia falar um pouco sobre isso? Sobre os primeiros anos do Gehenna e como diabos vocês conseguiram ser tão mal-interpretados com o passar dos anos.

No começo dos anos 90, as pessoas estavam confusas. Com fatores como o falso sucesso financeiro após 12 anos do plano financeiro de Ronald Reagan, o fim da Guerra Fria, o computador pessoal se tornando um item doméstico comum e um presidente que deveria estar no Huey Lewins and The News, a música tava meio que FODIDA. Tinha virado um prisma, que dobrava a luz e mudava suas cores, em vez de agir como um espelho, refletindo imagens da vida.

Era uma época em que a percepção de realidade da maioria das pessoas era tão distorcida que ninguém mais sabia como ter raiva ou lutar mais. As armas estavam vazias. Então todos os panacas deixaram suas armas de lado e resolveram virar robôs, entende? Grandes gravadoras e selos treparam com a tal da música “underground”. Artistas viraram escravos da idéia de ficarem populares e fazer amizades com aqueles que queriam homogeneízá-los. Dinheiro alimentava os mentirosos que se gabavam de toda aquela merda religiosa propagandista e uns empolgados que queriam fazer um nome além das aulas de teatro do ensino médio.

Mas nós tínhamos outros planos.

Pegamos nossas armas vazias e continuamos usando-as pra atingir o que queríamos. Nos prenderam num canto e não tínhamos outra escolha que não fosse sair à coronhadas até conseguirmos alguma munição e começar um tiroteio de verdade. Cê entende?

Isto é como, quando e porque o GEHENNA se formou. Não para conseguir amigos ou fama. Por isso não existem fotos nossas em nossos discos. Não como uma forma de propaganda babaca pra algum selo de bosta cheio de bandas que odiamos. Por isso lançamos tudo nós mesmos ou através de amigos.

Muitos acreditam que a gente criou essa mística toda em volta do que somos. Não podia estar mais distante da verdade. Como indivíduos, fomos criados dessa forma e não tivemos escolha. A besta de sete cabeças chamada GEHENNA nos escolheu pra destruir a humanidade e promover o final deste mundo.

2 – O Gehenna, mesmo sem querer, esteve na margem da infame cena “Holy Terror”. Como você lida com o termo atualmente? Qual sua opinião sobre as bandas que tentam emular o espírito daquela época?  Os moleques de agora parecem fetichizar LaVey, Manson e iconografia ocultista só porque é “bacana”

Há muito pra se falar, mas não tanto pra se dizer. Um escritor qualquer se referiu à gente assim. O termo “Holy Terror” se aplica? Sim, talvez. Fomos deuses e mártires pelo bem de reconstruir através da destruição e muito provavelmente isso é pavoroso pra maioria do mundo ocidental simplesmente porque não se encaixa nas crenças judaico-cristãs da maioria das pessoas.

Se este termo funciona pra muitas outras bandas? Não. Não mesmo. Não é sobre um som específico ou estilo ou até ferramenta de marketing. Não dá pra simplesmente se tornar parte disso. Ou você é ou não é. Se O Velho te bota nesse esquema e como tudo funciona, talvez você seja. Se tu sai usando um símbolo na tua jaqueta que tu não entende, então muito provavelmente você nunca será.

Cê tem que ter isso em mente se você escuta O Lobo… Tua liberdade ta na linha e liberdade não é um lance barato ou fácil. Ao fazer um pacto com a noite, você vira alvo do inimigo e as linhas entre artista e criminoso tendem à se misturar bem rapidamente.

Não sei o que a molecada de hoje faz. Talvez o mesmo que a gente fazia, pegando o que bem entendemos dos bestas que tão por aí. Mas nós sabemos que não é bem por aí. Só ficam no PC, acho. Não sei, passo meus dias meio que ignorando o que os outros fazem, querem ou pensam. Pessoas fetichizam outras vidas e atos porque eles mesmos nunca foram livres de verdade, nunca souberam ou saberão o que é necessário pra ser livre. O preço da liberdade é BEM alto.

Muitas vezes, liberdade é não ter um lugar pra morar ou grana ou um trampo ou até algo pra comer. Porque liberdade não é baixar a cabeça pr’um deus ou mestre ou estado. É dar adeus pra tudo que tu tem e não esperar NADA em troca. Charlie não matou nenhuma daquelas pessoas. Ele foi condenado sem um julgamento justo por ser um de nós e nós somos dele. Percebemos o que é preciso ser feito pra ser livre. E é isso que mantém os cães atrás da gente.

3 – Ainda sobre “Holy Terror”, o termo foi cunhado por algum dos caras do Catharsis, não? Há alguma relação entre vocês e a CrimethInc atualmente? Alguma boa história sobre a turnê européia de tempos atrás?

Dingeldine usou o termo pela primeira vez (Brian, vocalista do Catharsis). Nós e a CrimethInc não temos relação alguma. Nunca tivemos, pra te falar a verdade. Eles meio que precisavam da gente pra ganhar certo crédito nas ruas, entende? Ainda mais com todas aquelas bandas e livros que eles lançavam sobre a vida que NÓS levávamos enquanto eles tavam na escola.

A CrimethInc era um coletivo de estudantes. Só pensamento e filosofia, nenhuma ação. Sobre a tour européia de 97: o ápice foi comer num restaurante judaico chamado Maoz lá em Amsterdã e olhe lá, hehe.

Na foto: Tyrant (NIFELHEIM) e Mike Apokalypse de ONSLAUGHT

4 – Não é exatamente comum ver bandas de hardcore americanas misturando seu som com influências de black/death metal ou até mesmo crustpunk mais podre, quais bandas influenciaram mais através dos anos?

Pra falar a verdade, parece que cada cuzão nos EUA corre atrás de replicar e derivar música ao invés de fazer um bagulho novo, levando a música à novos altos e baixos. Todo mundo curte essa idéia de soar que nem CHILDREN OF BODOM ou FLOORPUNCH.

Quero mais é que se foda. As duas bandas são horrendas e uma pilha de bosta de cachorro, sem um pingo de criatividade. Apelam pro mais baixo denominador comum. Odeio gente estúpida e prefiro ofender todo mundo ao invés de fazer algo que possam gostar.

Sempre gostamos mais de punk e metal do que  essas porcarias que todo mundo adora. Há uns nomes bem óbvios tipoThe

  • DEAD BOYS
  • HELLHAMMER
  • G.G. ALLIN
  • ANGRY SAMOANS
  • BLACK FLAG
  • SODOM
  • The CHEIFS
  • BATHORY
  • G.I.S.M.
  • DISCHARGE
  • KREATOR
  • The STOOGES
  • VENOM
  • D.R.I.
  • NAPALM DEATH
  • C.o.C
  • SARCÓFAGO
  • POSSESSED
  • TERRORIZER
  • JUDGE
  • DESTRUCTION
  • INFEST
  • MOTORHEAD
  • BOLT THROWER
  • SUICIDAL TENDENCIES e por aí vai…

5 – O que você acha de selos que acabaram ficando grandes demais (Victory Records, por exemplo) e lançam só híbridos genéricos de hardcore/metal,  não parece uma cena à parte? Como o GG Allin disse certa vez, não é hora de tornar tudo perigoso de novo?

O PERIGO é o ingrediente principal de qualquer forma válida de arte. Quando algo é embalado como “apelativo” pras massas, perde toda sua força. Por essas e outras que lançamos nossos discos por conta própria ou em selos realmente independentes. Nossa mensagem sempre foi de rejeitar o mundo todo. Negar tudo que você aprendeu como regra. Desafiar as leis da sociedade. Quando tu se torna empregado de uma indústria que vai te tirar tua liberdade, você não é mais um artista livre.

Quando tem alguém no pé do teu ouvido te dizendo tudo o que fazer em todos os momentos, já era. Você é um escravo.

6 – Além do Gehenna, você tocou em outras bandas de som mais voltado pro metal como SANGRAAL e GRAVEHILL, pode falar um pouco sobre isso? Aliás, o material antigo do Gravehill é meio que uma aula de como black/death metal bestial deveria soar!

Todo membro do GEHENNA tocou ou ainda toca em trocentas bandas. A gente fez isso simplesmente porque sentia falta de alguma coisa em se tratando de música que queríamos ouvir ou até comprar.

Lojas de discos vendiam discos lixos de metal, discos lixos de punk, discos lixos de rock, etc. Por isso resolvemos formar umas bandas diferentes do GEHENNA, mas ainda com o mesmo sentimento e mensagem. Mesmo com alguns membros diferentes, GEHENNA, The DISCREET DOLL BAND, PENETRATIONS PANTHERS, DEVIL, WITCH-LORD, SANGRAAL and MOTHER FUCKING TITTY SUCKERS, etc etc etc são basicamente a mesma banda e seguem a mesma idéia. E essa idéia é “Foda-se todo mundo, foda-se o mundo. Vão se foder!”

A razão pela qual a demo do Gravehill “Practitioners of Fell Sorcery” soa daquele jeito é porque o Shane (que tocou guitarra nessa gravação) e eu não queríamos fazer nada bonitinho, fizemos um pacto (com drogas) em que acordamos em mijar nas palavras de homens e deuses. Por isso ele é parte da nossa linhagem de sangue até a morte e está no GEHENNA, PENETRATION PANTHERS e tudo mais o que fizermos.

7 – Bem, como somos um site brasileiro, preciso te perguntar, tem alguma banda brasileira que te chamou a atenção? Quer dizer, como você disse, curte um Sarcófago, mas há algo mais?

Eu aprendi sobre a cena sul-americana e da América Central através de trocas de fitas no final dos anos 80. Em 1988 ouvi o INRI pela primeira vez e minha vida mudou.

Sempre terei estas bestas da cena da América do Sul e Central no mais alto patamar. Bandas como VULCANO, MUTILATOR, HOLOCAUSTO, R.D.P., ATOMIC AGGRESSOR, SEXTRASH, CHAKAL, DORSAL ATLANTICA, ANGEL BUTCHER, MYSTIFIER, etc tiveram um puta impacto na gente.

Na foto: Mike com a peita BOMBEIRO do NIFELHEIM.

8 – Você parece ter um certo desgosto por fazer shows. Na real, você parece estar cagando pra tudo, então, em algum momento já pensou em tornar o Gehenna em uma banda de estúdio apenas? Ou a idéia é ficar por aí e incomodar mesmo?

Não é nem que a gente não goste de fazer shows ou que odiamos o público, até porque nunca entraram na equação do que o GEHENNA faz. Nunca fizemos isso pelos outros. Não é pr’outros ouvirem e gostarem. A música que fazemos é nossa e é um encantamento pra trazer o fim. Criamos uma imagem de drogas, morte, tortura e sofrimento.

Há momentos em que algum imbecil acha que ta no controle das coisas e que pode mandar em uma performance do GEHENNA. Aí o negócio fica feio. Quando estamos no palco, ele nos pertence. Quando entramos num recinto, ele é nosso. Rastejamos por estes becos há dezessete anos. Não temos intenção alguma de ver alguém chegar no lugar e achar que pode controlar em qualquer coisa que nos involvamos. Sabemos como funciona. Esse jogo de drogas, roubos, venda de armas, assaltos e o caralho, conhecemos, fizemos e vivemos. Então que esses moleques de merda acham que podem chegar e entender tudo… Nós não estamos brincando.

Sobre virar uma banda de estúdio… Nunca vai rolar. Escolhemos e organizamos nossos shows então não faria sentido parar com as performances ao vivo.

Mike bombando de Turbojugend pt. I > Inveja =~~~

9 – Você provavelmente já respondeu isso quatribuzilhão de vezes mas… Tem tantos GEHENNAS quanto DISGORGES por aí. Alguma das bandas européias tentou reinvidicar o nome ou algo assim?

Negócio é o seguinte, só existe um GEHENNA e somos nós.

Temos este nome desde o começo e vamos levá-lo até o fim. Recebemos cartas em 97 desses cornos que usam vestido e tinham uma mina tocando teclado tempos atrás.

Dissemos pra eles que éramos os donos desse nome por direito e que eles não passavam de uns fingidos do cacete. Também avisamos que estaríamos na Europa em breve e mandamos uma lista de datas, deixando bem claro que estávamos dispostos à sair na porrada por isso. Ninguém apareceu. Nunca nem nos responderam. Nunca fizeram turnê por aqui. Fizeram um monte de merda pra chegar perto do que fazemos aqui, mudaram até o logo pra lembrar mais o nosso.

Aqui fica um recadinho pra esses desgraçados: Vocês podem tirar a maquiagem e os vestidos e tentarem parecer conosco, agir como a gente, até CHEIRAR  que nem a gente, mas nunca serão como nós!

São uns merdas, fingidos, falsos e panacas. Vocês são músicos. Nós somos criminosos.

Mike bombando de Turbojugend pt. II > Inveja² =~~~~~

10 – Mike, obrigado pelo seu tempo, cara. O espaço está livre pra terminar como quiser.

Foda-se o mundo. Hail exército d’As Sete Coroas. 

Por: Índio a.k.a. Vorkriegsjugend/Vakka de suplente



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