Entrevista: Åsli (One Tail, One Head)

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One Tail, One Head é uma banda de Black Metal norueguesa sem qualquer invencionismo ou firula, com aquela pegada característica das bandas clássicas dos anos 90, em vários momentos soando mais Darkthrone do que o próprio. A semelhança é tamanha que, se pá, Fenriz deve ter ligado e pedido uns riffs do Panzerfaust de volta.

Fato é que o OTOH é uma das bandas que, pra mim, mais se destacaram dentro do Black Metal de uns tempos pra cá, fazendo um tremendo dum som simples e direto, mas carregando justamente no que faz o gênero se tornar algo separado do resto da dita cena metal: atmosfera. Isso, meus amigos, o OTOH tem de sobra.

Até então, a banda lançou duas demos e dois EPs, que (in)felizmente venderam mais que água no deserto e não há previsão de relançamento ainda. Torça pra que algum pé-de-bode se converta e descole uma cópia!

Pouco se fala da banda, então me pareceu uma boa ideia entrevistá-los pro IB.  No que possivelmente foi uma das entrevistas mais enroladas da história do nosso humilde bloguinho, após quatro meses, eis que Åsli, guitarrista da banda, finalmente respondeu.

Certamente, valerá seu tempo. De preferência, lê ouvindo esse som aqui em loop eterno:

O Black Metal old-school norueguês, da forma que vejo, está meio que passando por uma crise de meia-idade, algumas das bandas cresceram demais ao passo que outras absorveram outras influências,  tendo aí bandas novas como Haust e Kvelertak que pegam alguns elementos do Black Metal e dão sua própria cara. Qual sua opinião sobre o cenário atual?

Não existe uma cena de fato e ninguém deveria se preocupar tanto com isso. Realmente não importa. Não há razão em se preocupar com o que os outros andam fazendo, à não ser que seja algo grandioso, construtivo ou inspirador. É fácil demais ficar preso em uma linha de pensamento em que você tenta fazer algo ”certo” de acordo com regras (daquelas não escritas). Isso é algo que deve ser evitado, é uma estrada que leva ao nada. Mais uma vez, o que é Black Metal? Qual seu significado em um contexto mais amplo? Quanto de si mesmo você deveria investir nestas duas palavras, neste termo? Talvez toda essa energia deveria se voltar para nós mesmos. Talvez assim a existência ganhasse algum significado.

Como já foi dito em algum outro lugar, o One Tail, One Head não tenta ser uma banda de Black Metal ou sequer algo representante deste termo. Na maioria das vezes nos classificam como Black Metal, e está tudo bem, mas não defenderemos nada além de nossos próprios pontos de vista. Há milhões de opiniões diferentes sobre o que deveria ou não ser Black metal. E não é nossa intenção agradar qualquer um ao seguir suas regras. Fazemos o que queremos e as pessoas podem interpretar isso como quiserem.

Você deve ouvir isso sempre, mas em alguns momentos o OTOH soa muito próximo do que o Darkthrone fez no GRANDE Panzerfaust, nos anos 90. Você concorda com a comparação? Que outras bandas daquela época inspiram o OTOH?

A influência do Darkthrone está aí, sem dúvidas. Outras bandas clássicas como Celtic Frost e Mercyful Fate também têm sua parte. Mas Ildjarn sim, foi a maior inspiração no início do OTOH,  buscávamos honrar aquele espírito cru e primitivo. Além disso, não temos pra que sair citando nomes.

Somos quatro ávidos amantes da música, todos com gostos musicais extremamente variados. Não tentamos soar como nada em especial. Todas as influências surgem naturalmente e resulta no que somos. Chegamos ao ponto de sentir o que é OTOH e o que não é. Óbvio que isso é algo vago e meio abstrato, mas sabemos quando temos um riff ou música perfeita para a banda e essas influências podem vir de qualquer lugar! Sem qualquer limite.

Ainda sobre o Darkthrone e a cena norueguesa, qual sua opinião à respeito da nova direção musical dos caras?

Opiniões sobre o Darkthrone seguem divididas dentro da banda. Os respeitamos por fazerem o que querem e não tentarem repetir os sucessos do passado.

Até então vocês lançaram apenas alguns EPs e demos, existem planos para álbum ou split em um futuro próximo?

Estamos trabalhado em um álbum agora, mas vai demorar. Todos na banda estão envolvidos com outros projetos que tomam tempo, além de empregos comuns e estudos, entrando na equação tambén nossos shows, que demandam muito tempo e, é claro, energia. É importante fazer nosso melhor,  lançar algo abaixo da média está fora de questão, o mesmo vale para nossos shows! Simplesmente vai demorar o quanto for necessário. Porém, estamos tentando lançar algo em 2012, apesar de não prometermos nada.

A banda tem lançamentos em fita e vinil de 7”, você é um entusiasta, colecionador destes formatos? Qual a reação do público? Pelo que entendi, muito dos seus materiais já estão esgotados!

Não recebemos nada além de boas reações aos lançamentos. Metal e mídias analógicas são coisas muito próximas, nada de estranho até aí. Acredito que futuramente lançaremos tudo em vinil,  fita e cd também! Entusiastas? Bem, sim, definitivamente! Com a derrocada da indústria musical em geral, as pessoas parecem mais solícitas em pagar pelos lançamentos de artistas íntegros e genuínos do underground. O que torna todo o material cada vez mais importante. A música, as letras, o layout, o design, o material físico em si, os conceitos, o feeling – tudo. Essa é a beleza disso tudo. É como um novo amanhecer em nossas mãos. Queremos dar às pessoas uma experiência completa.

O nome da banda e suas artes referenciam a alegoria do Ouroboros, como isso influencia vocês, em termos líricos? O conhecimento/estudo oculto faz parte de suas vidas cotidianas? Qual sua opinião sobre as bandas que deixaram para trás as raízes “malévolas” de outrora e lidam com temas mais “modernos” como vida/decadência urbana?

O tema cíclico é algo presente em nossas letras, assim como nossas performances e a música em si. Desenvolvimento filosófico é um processo constante, e encarado assim, faz parte da vida de cotidiana de cada um, é claro. É tão natural quanto comer ou dormir.

O nome da banda é uma alusão à constante recriação de si mesmo e a superação de todos os obstáculos no caminho rumo ao amanhã. Ao mesmo tempo que o símbolo é uma espécie de ponto de retorno, sempre ao alcance, mesmo que através de dificuldades, tão somente. É a integração do oposto e o eterno retorno. É também, um lembrete pessoal da grande obra que é a vida e a responsabilidade que ela traz (assim, indo muito além desta banda, óbvio).

Falar sobre o ”mal” é complicado, já que no OTOH não nos preocupamos com esse dualismo preto-e-branco, tornando a questão por si mesma, em algo obsoleto. “Bem” e “mal”, como vistos no cristianismo comum, por exemplo, não fazem parte de nosso universo.

Quanto às bandas, que escrevam o que bem entenderem, sigam seus corações.

Esbarrei em algumas fotos da banda ao vivo, mas parece-me que vocês raramente fazem shows, certo? Há algum interesse ou planos para uma turnê? Você prefere focar em trabalho de estúdio ou o OTOH é uma banda de shows?

Até que tocamos bastante, mas talvez nem tanto se comparado com sua banda de metal/rock mediana.. Não somos essa máquina de turnês, mas o OTOH certamente é uma banda de fazer shows sim! Estamos abertos à turnês, mas não antes de haver interesse o suficiente. Tem que ter uma demanda, entende? A intensidade em nossos shows tornou-se uma parte integral e importantíssima da existência da banda. É possível que o que ocorre ao vivo e em estúdio reflita cada vez mais um no outro, no futuro. Gostamos da ideia de como as duas coisas podem se desdobrar de diferentes formas, influenciando-se mutuamente, o que soa bem natural, se você parar pra pensar. Mais do que uma banda de estúdio ou de palco, somos uma força bruta.

Ainda sobre seus shows, como disse anteriormente, as fotos que vi são, simplesmente, incríveis. Com aquela cabeça de veado e todo aquele sangue. Como vocês conseguiram uma cabeça decapitada do bicho? Usa-se uma cabeça diferente em cada show? Algum de vocês caça ou algo do gênero? Ou foi só ir no açougueiro e pronto?

A cabeça de veado fazia parte de uma instalação de um artista de Trondheim, Erik Tidemann, não é algo que fazemos normalmente. Agora o sangue e a terra, porém, são parte da performance, seu valor simbólico não pode ser subestimado, apesar de que as pessoas acham que o fazemos para fins de choque puro e simples, não é bem o caso.

O sangue é obviamente um forte símbolo (será?) de vida e morte. A terra é para onde voltamos, e de onde mais uma vez sairemos. Vida é morte, morte é vida. Nosso ritual é uma celebração dos momentos mais dramáticos do ciclo em movimento. É simples e ao mesmo tempo profundo.

OTOH é um elemento-chave no ”Nidrosian Black Metal”, vocês se vêem como um grupo unido, com objetivos mais sérios? Há alguma diretriz específica que as bandas devem seguir, como no caso das infames Légions Noires francesas ou é algo mais relaxado, entre amigos que por acaso têm os mesmos interesses?

Um grupo unido sim, definitivamente, mas com um background em comum ao invés de um objetivo, pode-se dizer. Os indivíduos envolvidos e as diferentes bandas e projetos que saem daqui estão seguindo para caminhos cada vez mais diversos e diferentes, o que torna tudo muito mais interessante. Não há diretriz alguma. As bandas, os projetos e as pessoas são independentes, mas apóiam uns aos outros.

Trondheim é bastante fértil se tratando de Black Metal, com um bom número de bandas animalescas e alguns desastres como o Keep of Kalessin. Como são as coisas aí? Rolam shows com bandas locais ou você tem que ir para outras cidades pra ver uns shows mais bacanas? Algumas outras bandas que você recomendaria?

Essa provavelmente é uma questão que realmente não nos preocupa muito. Estamos acostumados em fazer tudo por conta própria e trilhar nosso próprio caminho, dessa forma sempre atingimos nossos objetivos sem ajuda externa, financiamento ou o que fosse. O que nos deixa como outsiders da cena local, considerando as expressões um tanto quanto ”extremas” (bem, se comparadas a muitos outros, ao menos) com que lidamos. E funciona tudo muito, muito bem. Para nós, Trondheim é uma excelente base de operações. E, é claro, recomendamos em especial as bandas relacionadas ao nosso pequeno círculo. Quanto à shows, não há quase nenhum para bandas como nós, mas como mencionado, a situação nos convém.

Todos os membros da banda têm um ou mais projetos, incluindo aí bandas grandes como o Behexen, como vocês conseguem tempo para o OTOH?

”Projeto” não é bem o termo correto para tratar de bandas estabelecidas como Mare, Vemod, Celestial Bloodshed, Altaar e o Behexen que você mencionou. Todas estas bandas são sérias, independentes, com pontos de vista sérios e independentes, assim como o OTOH. Também temos empregos e estudos que exigem muito de nós, então realmente não sobra muito tempo, sendo sincero. Porém, estamos bem ensaiados e prontos para subir ao palco sempre que preciso! No meio-tempo, novo material vai surgindo aos poucos. Somos pessoas engenhosas, aguentamos um pouco de pressão.

Como somos um blog brasileiro preciso te perguntar isso: que bandas do Brasil você conhece? Além de Sepultura e Sarcófago, digo. Você ouve alguma banda brasileira?

Com exceção de Mystifier, nada além de clássicos foi citado. O que é uma pena e uma vergonha. Você deveria nos mandar uma lista com todas as bandas brasileiras fodas que deveríamos ouvir, certo?

Seria animal se você pudesse comentar os últimos 5 discos que ouviu.

Achamos que seria melhor dar uma lista recente de todos da banda. OTOH recomenda clássicos e obscuridades e o que estiver no meio. Hail!

J (guitarras):

Dead Can Dance – Within the Realm of a Dying Sun

  • Solanaceae –Solanaceae
  • Obsequiae – Suspended in the Brume of Eos
  • Orrery – Nine Odes to Oblivion
  • Darkthrone – Dark Thrones and Black Flags

Afgrundsprofet (vocais):

ZZ-Top - Best of

  • In Solitude – The World, The flesh, The Devil
  • Dissection – Storm of the Light’s Bane
  • Hank Williams the III – Damn Right Rebel Proud
  • Funeral Mist – Maranatha,
  • Behexen – My Soul for His Glory


Andras (baixo):

Siouxsie And The Banshees - Tinderbox

  • Sepultura – Schizophrenia
  • Massacra – Enjoy The Violence
  • Miles Davis – Bitches Brew
  • Clikatat Ikatowi – Conducted And Constructed By Clikatat Ikatowi

Ø (bateria):

Fields Of The Nephilim – Elizium

  • Iron Maiden – Brave New World
  • Negative Plane – Stained Glass Revelations
  • Törr – Armageddon
  • Nekromantheon – Rise, Vulcan Spectre

Esse espaço é seu, finalize como quiser.

Muitíssimo obrigado pela entrevista e pelo interesse em nosso trabalho. E não esqueçamos de sua paciência! Esperamos tocar diante das hordas da América do Sul algum dia. Observe a noite, os pássaros de fogo estão voando! (nota do IB: wtf!)

Mais info:

Fossbrenna Creations (Selo do Åsli)



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Por: O Índio Veja todos os posts do
Geograficamente afastado, entrou pra equipe do Intervalo Banger por meio do sistema de cotas. Seu gosto musical vai da bosta ao diamante com apenas um shuffle no mp3 player. É tradutor/redator freelancer e também escreve em http://freelancismo.org
  • http://www.facebook.com/people/Tiago-Duarte/1563938527 Tiago Duarte

    Os passaros de fogo estão voando, isso é o que importa!

    • http://twitter.com/sonnengotter T. Silva

      E a entrevista ia tão bem! haha

  • Drlschilling

    Hmmmm o Vidar Vaer deve estar realmente super “orgulhoso” dessa cabeça de veado toda no barbecue

    • http://twitter.com/sonnengotter T. Silva

      Uma coisa é uma coisa, outra coisa é ouuuuuutra coisa, hehe.

  • Mt

    Se eu entendi bem saporra de citação do maloks aí, ele fez menção a Fênix e pans simbolizando a crença dele sobre esse negócio de Ciclo.

    • http://twitter.com/sonnengotter T. Silva

      Faz sentido, mas a frase fica feia tanto em pt-br quanto em inglês, haha.

  • Anonymous

    do caralho, mas ficou engraçado os pardal pegano fogo e as hordas. os caras trabalham e estudam hein? rsrsrs

  • http://twitter.com/sonnengotter T. Silva

    Acho que também te amo, kra.

  • http://www.facebook.com/people/Guilherme-Lima-De-Assis/779451324 Guilherme Lima De Assis

    (nota do IB: wtf!) hahahaha Muito boa a entrevista!

  • Pingback: Nem só de Black Metal vive a Noruega – conheça o LIVSTID | Intervalo Banger

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